Por Alice Beyer Schuch

Buscando abordagens à uma moda mais sustentável, percebo a importância de estratégias de design adequadas, combinadas à conceitos de negócio inovadores para impulsionador da economia circular. Apenas o uso de tecidos apropriados, mas mantendo módulos de varejo atuais pode não ser suficiente para criar a mudança real na indústria da moda.

Como podemos criar uma coleção de moda que promova a economia circular através de estratégias adequadas de design sustentável?

O que seria um modelo de negócio benéfico, que aumentaria a conscientização, conhecimento e participação do cliente, permitindo que produtos e materiais sejam mantidos à sua utilidade máxima, visando a reciclagem final?

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Logo Cirkla Collection por Alice Beyer Schuch

No intuito de pensar alternativas para um Modelo de Negócio Circular, que combatam a ideia de “take-make-waste”, a coleção CIRKLA foi desenvolvida, onde cada etapa é repensada buscando estender ao máximo o uso dos produtos de moda, conectando clientes e aumentando conhecimento.

Passo 1: Materiais

A seleção dos têxteis atende a alternativas sustentáveis como o rami, do qual o Brasil é o terceiro produtor mundial. Rami é uma fibra natural extremamente resistente e absorvente, classificada como rápido recurso renovável e que cresce em condições úmidas semitropicais, sem necessidade de irrigação artificial – uma vantagem quando se considera as questões de escassez de  água. De qualquer forma, a planta também é capaz de suportar secas e pode alcançar uma vida útil de vinte anos. Em adição a isto, não há necessidade de pesticidas, e os rendimentos de fibras pode atingir 1,5 toneladas por hectare – algodão tem uma média global de 700 kg por hectare.

Anthyia foi o fornecedor selecionado durante este projeto.

Passo 2: Estratégia de Design

Design atemporal foi abordado, em linhas simples e clássicas, com uma pegada esportiva.

A estratégia de design para a circularidade também foi considerada. Isso significa que mesmo antes do desenvolvimento do produto, seu final de ciclo foi considerado, assim definindo a utilização de tão somente materiais naturais renováveis. Composições têxteis são considerados apenas com outras fibras naturais, tais como algodão orgânico, linho, seda, lã ou Tencel®. E embora a composição com sintéticos seja possível e não interfira na reciclagem (mecânica), a mesma se opõe a biodegradabilidade no final do ciclo, sendo assim evitada. Além disso, é relevante pensar em fechamentos, guarnições, armarinhos, e até mesmo linhas de costura. Está compreendido o uso de botões de madeira ou noz; fios de algodão, Tencel® ou de bio-polímeros; e elásticos, entretelas ou outros tecidos biodegradáveis, quando necessário.

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Look desenvolvido por Alice Beyer Schuch para Anthyia

Paso 3: Negócios

Inspirado pela marca Filippa K, foi incorporada à coleção a possibilidade de comercialização de peças HERITAGE, através de uma plataforma virtual para conectar clientes da marca que queiram trocar suas peças. Clientes que tenham comprado anteriormente e desejam participar do programa, podem facilmente preencher um formulário digital, onde informações relevantes são solicitadas. As mesmas estarão disponíveis automaticamente na página web da marca, mostrando imagem e opinião pessoal sobre o produto, o disponibilizando a outros clientes.

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Simulação do site para a Coleção Cirkla

No site da marca, clientes tem então a possibilidade de eleger se compram uma roupa NOVA ou HERITAGE. Onde “nova” representa a coleção recente; e amostras, itens de feiras, peças de coleções antigas, e roupas de segunda mão de clientes são oferecidos na plataforma “heritage”. Há ainda a possibilidade de participar do programa de reciclagem.

Passo 4: Fim do ciclo

Uma parceria para o final do ciclo do produto é realizada junto a indústria de reciclagem de fibras têxteis. Sobras da produção, assim como roupas que clientes querem se desfazer, devem ser destinados à reciclagem, evitando assim o descarte de materiais têxteis, podendo também trabalhar em cascatas com outros sectores da indústria que reduziriam sua necessidade de matéria-prima virgem.

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Modelo de Negócio Circular para Cirkla Collection, por Alice Beyer Schuch

Passo 5: Transparência

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Toda esta estrutura seria possível e seguida por meio da utilização de códigos QR, impressos exclusivamente em cada peça. Quando lido, ele leva o cliente a página da marca, onde se tem acesso fácil sobre os materiais utilizados, locais de produção ou a utilização prévia de um Item Heritage (os clientes também podem verificar a informação indo diretamente para página).

O uso de códigos QR também capacita a marca a seguir os ciclos das roupas e receber informações valiosas sobre as preferências dos clientes, tempo de uso, os índices de revenda, designs mais (ou menos) duradouros. Cada etapa de produção e comercial de uma peça de vestuário é registrada através do seu código.

Observações finais

A definição adequada de parâmetros no design pode ser um desafio, considerando as restrições quando se pensa em reciclagem e biodegradabilidade, e pode exigir alguns compromissos tanto na parte do produto quanto no investimento em materiais não convencionais.

Além disso, trabalhando no modelo de negócio circular proposto, onde os clientes podem revender suas roupas usadas ou participar em programas de reciclagem, coloca restrições geográficas iniciais – em consequência, deve-se começar localmente – e sugere investimentos iniciais em estrutura digital e em boas parcerias.

O retorno financeiro deve ser considerado com o dimensionamento dos programas. Para isso, a estreita ligação com o cliente é um ponto vital. Como a sua participação é um passo importante nesta mudança para modelos de negócios circulares, a mensagem deve ser transmitida de forma clara, mostrando conceitos e processos ideais, mas também os progressos feitos com vitórias e futuros pontos de melhoria. Uma comunicação intensa e transparente, a fim de evitar mal-entendidos e falsa percepção ecológica é crucial.

No entanto, toda a mudança é um desafio. E, como definido por McDonough & Braungart,

“O trabalho de progresso é, por definição, sempre um trabalho em progresso”.

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