Má sustentabilidade?

Caminhos controversos rumo à circularidade da moda

*Escrito por Alice Beyer Schuch para Slow Fashion Next (espanhol) e compartilhado em Cirkla Modo (inglês) e no site Modefica (Brasil).

Muitas vezes ouvi a frase: “a roupa mais sustentável é a que já existe”. Será? Ouvi isso principalmente em apresentações sobre moda e sustentabilidade em locais ou países onde somente agora se está começando a pensar en alternativas como a valorização de lojas de segunda mão, a promoção do upcycle e novos ciclos de produtos, e a criação com o que é considerado descarte. Sem dúvidas, mencionando Alex Lemille, “repensar e redesenhar nosso modelo econômico com base na constante reutilização de nossos recursos já extraídos é uma modernização definitiva e uma evolução positiva da economia padrão”. Mas tenha cuidado! Apenas propor a reutilização de materiais ou produtos não é, a longo prazo, sustentável se pouca atenção é dada às fibras/processos e seus impactos ambientais, à conexão com o Design de produtos e ao final do ciclo-de-serviço quando pensamos em novos produtos – para que, efetivamente, a sustentabilidade e, consequentemente, a circularidade ocorram.

 

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Mercados de segunda mão: a reutilização de recursos já extraídos é uma modernização definitiva e uma evolução positiva da economia padrão. Foto: B. Schuch, Alice.

 

Na verdade, considerando a definição da palavra sustentável – que se pode manter por longo prazo sem esgotar recursos ou causar sérios danos ao meio ambiente – não podemos dizer, por exemplo, que as roupas feitas com algodão convencional são as mais sustentáveis que existe apenas por estarem sendo reutilizadas. Em vez disso, é uma extensão dos modelos lineares atuais, um loop no meio do caminho que, ao final, provavelmente acabará em um aterro sanitário ou incinerador. Na verdade, um estudo do WRAP “Textiles Market Situation” já indica que a situação do mercado para coleta e reutilização/reciclagem de têxteis no Reino Unido está se contraindo rapidamente, o que gera o risco de aumentar a proporção enviada para aterro e incineração, desperdiçando oportunidades ao benefício ambiental e econômicas.

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Nike: materiais reciclados no caminho à sustentabilidade, como nas calças feitas com fibras de garrafas plásticas. Fonte: Nike News

E pensando nisso, nas estratégias que as empresas tomam e no seu fundo sustentável real, lembrei-me de uma conversa que tive há alguns anos sobre uma coleção de uma conhecida marca de Jeans feita com fibras sintéticas produzidas a partir de plásticos coletados do oceano (ou tantos outros exemplos com práticas semelhantes). A marca atua de forma exemplar em muitos aspectos e não questiono aqui suas múltiplas alternativas sustentáveis. O que eu me questionei na época foi, em geral, (i) os recursos definidos; (ii) o design aplicado; e (iii) as considerações futuras apresentadas por marcas de moda no caminho à sustentabilidade (ou, ainda mais recentemente, à circularidade)

1. Os recursos e a responsabilidade real do setor competente por seu própria descarte.

Do meu ponto de vista, o grande responsável pelo lixo plástico visível em nosso planeta é a indústria de embalagens e produtos plásticos similares – que recicla apenas 14% de sua produção de acordo com o estudo da Fundação Ellen MacArthur “The New Plastics Economy: Catalysing action“. A indústria da moda, aproveitando-se desse recurso infelizmente abundante e facilmente acessível, colabora com a “limpeza” de nosso planeta, embora de forma insignificante. Um posicionamento como este não ataca diretamente o problema em sua raiz e acaba confiando em fluxos de resíduos de outros setores para suas ações sustentáveis ​​e, paralelamente, se põe a resolver a questão do descarte de uma indústria ou um sistema que são a verdadeira causa daquele lixo. Que desenvolvemos, em nosso setor, métodos para reciclar nossos próprios materiais, evitando uma futura dependência da irresponsabilidade alheia.

2. O design e a utilização de fibras têxteis sintéticas e naturais na composição de tecidos.

Sem dúvida, é melhor escolher fibras/têxteis de baixo impacto sempre que possível. Aqui, as fibras recicladas podem ser apresentadas como uma alternativa, uma vez que a reutilização de fluxos de resíduos em vez de materiais virgens não renováveis (como no caso do poliéster) é um ponto positivo. Mas misturar fibras sintéticas com outros produtos têxteis como o algodão, que é uma fibra natural, não é a melhor estratégia de design a ser aplicada no meu ponto de vista. No livro Cradle to Cradle, que é uma das bases do conceito de Economia Circular, foram definidos dois segmentos claros – o técnico e o biológico – e que devem ser mantidos separados (ou possível de separar) para permitir a reciclagem futura e/ou o retorno seguro à natureza ao final de seus ciclos-de-serviço. Buscar verificar a necessidade real de combinar esses materiais é extremamente necessário quando pensamos em sustentabilidade, e a longo prazo, em circularidade.

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Bionic Yarn: fio feito com filamentos de plástico reciclado (rPET) e que pode ser coberto com fibras naturais como o algodão. Fonte: Bionic Yarn

3. O fim do ciclo-de-serviço e o destino que poderia ser dado a peças de fibras mistas.

Se sustentabilidade é não causar sérios danos ao meio ambiente, o que a marca haveria planejado para o final do ciclo de seus produtos? O que a marca faria com suas peças se fosse ela a responsável pelo seu próprio fluxo de descarte – como por exemplo em “EPR – Extended Producer Responsibility” já ativo na França? Qual seria a sua futura dependência de recursos não renováveis ​​- como garrafas PET não devidamente coletadas e recicladas pelo setor responsável? Atualmente, sabemos que existem empresas capazes de oferecer fios têxteis feitos com materiais mistos através de seus processos mecânicos de reciclagem, e que a reciclagem química está sendo desenvolvida para além dos laboratórios, mas isso não acontecia há poucos anos atrás. Estratégias de design equivocadas, que com a falta de objetivos e conexões adequadas referente ao fim de um ciclo dos produtos não permitem nada mais do que o downcycle têxtil, são ações contraditórias e questionáveis ​​na minha visão de sustentabilidade e circularidade da moda, embora os materiais de menor impacto ou reciclados são uma das bases dos produtos (e comunicação).

Resumidamente, marcas e designers que trilham o caminho à circularidade da moda devem ter em mente (e ainda melhor, em suas páginas web) uma visão sistemática e planos futuros, comunicando-os de forma coerente. Porque, finalmente, a informação e como a publicidade é apresentada para nós é a parte que efetivamente nos toca como mercado/usuário de moda. É importante estar atento… Estão desenvolvendo produtos pensando no futuro e no final do seu tempo de serviço, apresentando uma estratégia clara e transparente? Ou estão usando argumentos ambientais atuais e apelativos para promover a publicidade, criando em nós (clientes) a sensação de que agora podemos comprar sem remorso e assim aumentar suas vendas?

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G-Star Raw for the Oceans: uma coleção feita com fibras sintéticas recicladas. Fuente: Plug In Magazine

Como mencionado no novo relatório do Greenpeace “Fashion at the Crossroads“: “projetos como esses devem ser vistos como uma ferramenta de comunicação para aumentar a conscientização pública sobre a poluição […], mas eles não podem ser considerados um passo sério à circularidade […]. Qualquer comunicação corporativa que não reconheça isso engana seus clientes e pode ser vista como greenwashing e [indo] em “má direção”.

Que estejamos atentos, questionando e não deixando que a má sustentabilidade se expanda!

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Alice é brasileira, mestre em Moda Sustentável formada na Alemanha, e profissional atuante em MODA CIRCULAR e SUSTENTABILIDADE no Brasil e Europa, na  www.es-fashion.net e www.cirklamodo.com

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**Referencias:

Entrevista com Alex Lemille em http://www.kaleydos.com.br/economia-circular-e-bom-para-os-negocios/

WRAP “Textiles Market Situation”  em http://www.wrap.org.uk/sites/files/wrap/Textiles_Market_Situation_Report_2016.pdf

Fundação Ellen MacArthur “The New Plastics Economy: Catalysing action” em https://www.ellenmacarthurfoundation.org/assets/downloads/New-Plastics-Economy_Catalysing-Action_13-1-17.pdf

Greenpeace “Fashion at the Crossroads” em http://www.greenpeace.org/international/en/publications/Campaign-reports/Toxics-reports/Fashion-at-the-Crossroads/

**Hashtags:

ModaCircular, sustentabilidade, EstrategiasdeDesign, materiaisustentaveis, texteis, redesign, reciclagem, economiacircular, comunicacao, greenwashing, Greenpeace

 

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